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sábado, 7 de janeiro de 2012

Se tu me esqueceres


Quero que saibas
uma coisa

Tu sabes como é:
se contemplo
a lua de cristal, os ramos rubros
do outono lento da minha janela,
se toco
ao pé do lume
a implacável cinza
ou o corpo enrugado da lenha,
tudo a ti me conduz,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
em direcção às tuas ilhas que me esperam.

Ora bem,
se a pouco e pouco deixas de amar-me
deixarei de amar-te a pouco e pouco.
Se de repente
me esqueceres,
não me procures,
quejá te haverei esquecido.

Se consideras longo e louco
o vento de bandeiras
que percorre a minha vida
e decidires
deixar-me à margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
nessa hora,
levantarei os braços
e as minhas raízes irão
procurar outra terra.

Mas
se em cada dia,
em cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se cada dia em teus lábios
nasce uma flor que me procura,
ai, meu amor, ai, minha
todo esse fogo em mim se renova,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor do teu amor se nutre, amada,
e enquanto viveres continuará nos teus braços
sem abandonar os meus.

Pablo Neruda



sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Oficio - Casimiro de Brito

Porque hoje é sexta-feira...:-)

Escrevo para sentir nas veias
o voo da pedra.
Antecipação da paz
neste país de granadas
moldadas
no silêncio dos frutos.
Escrevo como quem escava
no bojo da sombra
um mar de claridade.
Pedras vivas de possibilidade
as palavras levantam
o crime, os pássaros do pântano
Escrevo
no grande espaço obscuro
que somos e nos inunda.

Casimiro de Brito, in "Jardins de Guerra"

sexta-feira, 21 de maio de 2010

George Gray - Edgar Lee Masters

O meu compromisso com a V. e o MB foi um poema por semana. Aliás, o MB hoje implorava por um poema. Anda um bocadinho traumatizado de não me ter ao lado dele.

Este foi o terceiro poema que lhes enviei. Tenho de colocar cá os anteriores, não sei quando.

Há muito, muitos anos atrás, ouvi este poema numa série de TV, não me lembro qual, mas gostei tanto dele que anotei umas linhas e posteriormente pesquisei-o na internet.

Foi escrito por Edgar Lee Masters ( nascido no Kansas em 1869) e faz parte duma antologia de epitáfios. Fala de alguém que depois de morto olha para o mármore que encomendou para a sua sepultura. Parece lúgubre, mas é de uma beleza extraordinária.

George Gray

I have studied many times
The marble which was chiseled for me
A boat with a furled sail at rest in a harbor.
In truth it pictures not my destination
But my life.
For love was offered me, and I shrank from its disillusionment;
Sorrow knocked at my door, but I was afraid
Ambition called to me, but I dreaded the chances.
Yet all the while I hungered for meaning in my life
And now I know that we must lift the sail
And catch the winds of destiny
Wherever they drive the boat.
To put meaning in one's life may end in madness,
But life without meaning is the torture
Of restlessness and vague desire
It is a boat longing for the sea and yet afraid.


 
Comentários sobre este poema aqui: http://www.americanpoems.com/poets/Edgar-Lee-Masters/15727/comments

terça-feira, 4 de maio de 2010

Táctica y Estrategia

No meio das pesquisas de Marketing apareceu-me este poema que capturou o meu coração, e por isso resolvi partilhá-lo.

Se um dia quiserem pedir uma mulher em casamento e não souberem como, dêem-lhe este poema, ela vai perceber. Se não perceber é porque não vale a pena casarem com ela...

Mi táctica es mirarte
aprender como sos
quererte como sos
mi táctica es hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible
mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé como, ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.
Mi táctica es ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos simulacros
para que entre los dos no hayan telón
ni abismos.
Mi estrategia es en cambio más profunda y más simple,
mi estrategia es;
que un día cualquiera
ni sé cómo, ni sé
con que pretexto por fin me necesites.



Táctica e estratégia

A minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és
A minha táctica é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
A minha tática é
ficar na tua lembrança
não sei como, nem sei
com que pretexto,
porém ficar em ti.
A minha táctica é
ser verdadeiro
e saber que tu és verdadeira
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos
A minha estratégia é
por outro lado
mais profunda e mais
simples
A minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como, nem sei
com que pretexto
por fim tenhas necessidade de mim.

Mario Benedetti
Tradução CMar (aceitam-se sugestões de melhoria ;-))