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quinta-feira, 1 de julho de 2021

A minha vida tem uma banda sonora

Porque adoro música, a minha vida tem sempre uma banda sonora. Hoje depois de esperar mais de uma hora, na sala de exame onde entrei, o radio estava ligado e tocava Foo Fighters. Em cada exame sinto-me sempre o Astérix: basicamente, só tenho medo de que o céu me caia em cima da cabeça; um céu que se parte como um espelho, que se precipita em cima de mim com milhares de estilhaços que me trespassam. O que é posso esperar dum corpo com uma capacidade absurda de sobreviver mas que, ironicamente já me quis matar?

Every day waiting for the sky to fall

Big crash on a world that's so small
Just a boy with nowhere left to go
Fell in love with a voice on the radio
Is there more to this than that?

Foo Fighters - Waiting On A War

sábado, 25 de novembro de 2017

A vacina

Bati-me várias vezes com a minha oncologista sobre este tema: "Cada um de nós é um individuo único, porque é que os protocolos de quimioterapia são standard? Porque é que não é adaptado a cada pessoa? Como é que vocês sabem que isto me vai curar?"
 "Não sabemos. Sabemos que a maioria dos tumores reage a este cocktail."
"Tenho mesmo de fazer isto?"
"Tem."
E eu murmurava:"Mas eu não sou standard... eu sou... diferente..." 
Quando se inicia a quimioterapia dá-se mais um salto de fé. Acredita-se que aquilo pode dar certo. Avança-se para um tratamento que vai virar o nosso corpo e a nossa vida do avesso, sem certezas de que ele vai resultar mas, acreditanto que vai.
Pede-se a todos os santinhos disponíveis para que o cirurgião que nos operou tenha retirado o tumor e todas as metástases visiveis e invisiveis. Em grande parte dos cancros, a cirurgia é o passo mais importante; é muitas vezes a cura. A quimioterapia actua como um preventivo de reocurrência da doença. Quando ficam metásteses, por muito pequenas que sejam, dependendo do tipo de cancro e dos quimicos que existem para as controlar, o fim pode ser só uma questão de tempo.
Uma vacina personalizada que se conjuga com imunoterapia vem abrir novos caminhos muito mais amplos. A cura para alguns já não vem a tempo mas, para outros está cada vez mais perto.

  Vacina personalizada contra o cancro

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Positiva

"Tens de ser positiva". Ouvi muitas vezes esta frase desde que fiquei doente. Acontece que, eu sempre fui uma gaja positiva. Como diz uma amiga minha GAD! Graças a Deus. Perante a tragédia, o drama, o horror eu sou aquela que já está a pensar como é que vai fazer para dar a volta à situação. O copo para mim está sempre meio-cheio. Com um bom tinto. Assim sendo, é justo que me chamem a Miss Positividade. Onde é que isso me levou? A uma vida muito mais animada. Mas, não me impediu de ter cancro. A Miss Positividade ganhou em 2 anos, dois cancros. Nada do género "Pague um, leve dois", Foi mais "Leve dois e pague dois. Atenção que no segundo cobramos 60% de juros." Em dois anos, no jogo do Bingo dos cancros sairam-me dois números e estou-me a esforçar para não fazer uma linha.

"Tens de ser positiva que isso é meia cura". Sim, sim... não fosse a Carboplatina e o Paclitaxel, estava bem tramada. Houve também uma vez que alguém me perguntou se eu tinha mesmo de ser operada:
"-Não mas, eu não tinha nada para fazer nesse dia. Não quis perder a oportunidade de estar 7 horas numa cirurgia, fechar as urgências, ter 5 ou 6 médicos a olhar só para mim. Sempre quis conhecer uma unidade de cuidados intensivos, as luzes, os bips... e depois uma semana sem comer é melhor que qualquer SPA!"
"-Ah!..."
Não me lembro de quem foi a pergunta... É a benesse da quimioterapia, esquece-se muita coisa que não interessa. Alguma que interessa também mas, isso é outra história.

O ano passado por esta altura, estava eu ocupada a ser positiva. Vejo as minhas memórias do Facebook e penso: "Que inconsciente!" Eu estava feliz. Gostava do meu trabalho, estava finalmente perto de casa e tinha descoberto um desporto que adorava. Sentia-me forte e cada vez mais em forma.
Foi nessa curva ascendente que o meu segundo cancro me apanhou. Ele estava lá, caladinho, sorrateiro, a pensar como é que havia de me matar...